segunda-feira, 11 de junho de 2012

Para a Crítica da Economia Política- Friedrich Engels ,15 de Agosto de 1859

Para a Crítica da Economia Política

Primeiro Fascículo, Berlin, Franz Duncker, 1859

Friedrich Engels

15 de Agosto de 1859


Primeira Edição: Escrito por Engels de 3 a 15 de Agosto de 1859. Publicado no jornal Das Volk, n.º 14 e 16 , de 6 e 20 de Agosto de 1859, respectivamente.
Fonte: Obras Escolhidas em três tomos,
"Avante"
Tradução: José BARATA-MOURA (Publicado segundo o texto do jornal. Traduzido do alemão).
Transcrição e HTML:
Fernando A. S. Araújo, agosto 2007.
Direitos de Reprodução:

Edições Progresso Lisboa - Moscovo, 1982.


I

Em todos os domínios científicos, desde há muito que os alemães demonstraram que estão ao nível das restantes nações civilizadas e, na maior parte deles, que são superiores. Apenas uma ciência não contava com qualquer nome alemão entre os seus corifeus: a Economia Política. A razão é evidente. A Economia Política é a análise teórica da sociedade burguesa moderna e pressupõe, portanto, condições burguesas desenvolvidas, condições que, na Alemanha, desde as guerras da Reforma e dos Camponeses[N275] e, sobretudo, desde a Guerra dos Trinta Anos[N276], não se puderam estabelecer durante séculos. A separação da Holanda do Império[N277] afastou a Alemanha do comércio mundial e reduziu de antemão o seu desenvolvimento industrial às proporções mais mesquinhas; e enquanto os alemães recuperavam tão penosa e lentamente das devastações das guerras civis, enquanto empregavam toda a sua energia cívica — que nunca foi muito grande — na luta estéril contra as barreiras alfandegárias e os regulamentos comerciais loucos que cada príncipe em formato reduzido e cada pequeno barão do Império impunham à indústria dos seus súbditos, enquanto as cidades do Império entravam na decadência dos grémios e do patriciado —, enquanto tudo isto se passava, a Holanda, a Inglaterra e a França conquistavam os primeiros lugares no comércio mundial, estabeleciam colónia atrás de colónia e desenvolviam a indústria manufactureira ao mais alto grau, até que, finalmente, a Inglaterra, por meio do vapor, que só então deu valor às suas jazidas de carvão e de ferro, acedeu ao cume do desenvolvimento burguês moderno. Enquanto, porém, foi preciso conduzir uma luta contra uns restos tão ridiculamente antiquados da Idade Média como aqueles que entravaram até 1830 o desenvolvimento burguês material da Alemanha, nenhuma Economia Política alemã foi possível. Somente com o estabelecimento do Zollverein[N165] ficaram os alemães em situação de poderem quando muito apenas entender a Economia Política. A partir desse tempo, começou de facto a importação da Economia inglesa e francesa para proveito da burguesia alemã. Em breve os círculos científicos e a burocracia se apoderaram da matéria importada e trabalharam-na de uma maneira não muito digna do crédito do "espírito alemão". Da misturada de cavaleiros de indústria literatos, de comerciantes, pedantes e burocratas, gerou-se, então, uma literatura económica alemã que, quanto a sensaboria, falta de profundidade e de ideias, prolixidade e plágio, só tem par no romance alemão. Entre as pessoas com objectivos práticos, desenvolveu-se primeiro a escola proteccionista dos industriais, cuja autoridade, List, foi ainda o melhor que a literatura económica burguesa alemã produziu, apesar de toda a sua obra gloriosa ter sido copiada do francês Ferrier, criador teórico do sistema continental[N15]. Face a esta orientação, formou-se nos anos quarenta a escola do livre-cambismo dos comerciantes nas províncias do Báltico, que papaguearam os argumentos dos free-traders[N148] ingleses com uma fé pueril, mas interessada. Por fim, entre os pedantes e burocratas que tiveram de ocupar-se do lado teórico da disciplina, havia áridos coleccionadores de herbários sem crítica, como o senhor Rau, especuladores que a armar ao esperto traduziam as proposições estrangeiras num Hegelíano mal digerido, como o senhor Stein, ou respigadores beletriantes no domínio "histórico-cultural", como o senhor Riehl. O que acabou por sair daqui foi a Cameralística[N278], um puré de toda a espécie de coisas estranhas, regado com um molho económico ecléctico, do tipo do que um licenciado em direito precisa de saber para o exame de Estado.

Enquanto, deste modo, a burguesia, o pedantismo académico e a burocracia, na Alemanha, ainda tinham dificuldade em aprender de cor e em clarificar em alguma medida os primeiros elementos da economia anglo-francesa como dogmas intangíveis, fazia a sua aparição o partido proletário alemão. Toda a sua existência teórica resultava do estudo da Economia Política e do instante do seu aparecimento data também a Economia alemã científica, autónoma. Esta Economia alemã repousa essencialmente sobre a concepção materialista da história, cujos traços fundamentais são expostos brevemente no prefácio da obra atrás citada(1*). Quanto ao principal, este prefácio foi já reproduzido em Das Volk[N279], pelo que para ele remetemos. Não apenas para a Economia, mas para todas as ciências históricas (e são históricas todas as ciências que não são ciências da natureza), foi uma descoberta revolucionária esta proposição: "O modo de produção da vida material é que condiciona o processo da vida social, política e espiritual"; todas as relações sociais e do Estado, todos os sistemas religiosos e jurídicos, todas as visões teóricas, que emergem na história, só podem, então, ser compreendidas se as condições de vida materiais da época correspondente forem compreendidas e se as primeiras forem derivadas destas condições materiais. "Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, inversamente, o seu ser social que determina a sua consciência." A proposição é tão simples que teria de ser evidente para quem não esteja preso nas malhas do logro idealista. A coisa tem, porém, as mais altas consequências revolucionárias, não apenas para a teoria, mas também para a prática: "Numa certa etapa do seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes ou, o que é apenas uma expressão jurídica delas,com as relações de propriedade no seio das quais se tinham até aí movido. De formas de desenvolvimento das forças produtivas, estas relações transformam-se em grilhões das mesmas. Ocorre então uma época de revolução social. Com a transformação do fundamento económico revoluciona-se, mais devagar ou mais depressa, toda a imensa superstrutura. [...] As relações de produção burguesas são a última forma antagónica do processo social da produção, antagónica não no sentido de um antagonismo individual, mas de um antagonismo que decorre das condições sociais de vida dos indivíduos; mas as forças produtivas que se desenvolvem no seio da sociedade burguesa criam, ao mesmo tempo, as condições materiais para a resolução deste antagonismo."(2*) A perspectiva de uma poderosa revolução, da revolução mais poderosa de todos os tempos, abre-se, portanto, perante nós, desde logo, com a prossecução da nossa tese materialista e com a sua aplicação ao presente.

Considerando, porém, as coisas mais de perto, verifica-se logo também que a proposição de aparência tão simples como a de que a consciência dos homens depende do seu ser e não inversamente contunde directamente, logo nas suas primeiras consequências, todo o idealismo, mesmo o mais dissimulado. Todas as visões tradicionais e habituais acerca de tudo o que é histórico são por ela negadas. Todo o modo tradicional do raciocínio político cai por terra; toda a patriótica nobreza de alma se levanta indignada contra uma concepção tão desprovida de carácter. A nova maneira de ver choca, portanto, necessariamente, não apenas os representantes da burguesia, mas também a massa dos socialistas franceses que querem levantar o mundo dos gonzos com a fórmula mágica liberte, égalité, fraternité(3*). Causou, porém, o mais consumado furor entre os vociferadores democratas vulgares alemães. Apesar disso, procuraram de preferência explorar as novas ideias, plagiando-as, embora com rara incompreensão.

O desenvolvimento da concepção materialista, mesmo sobre um único exemplo histórico, era um trabalho científico que teria exigido um estudo tranquilo durante anos, pois é evidente que, nesta matéria, nada se pode fazer com simples frases, que só um material histórico em massa, criticamente considerado e completamente dominado, pode habilitar para a solução de uma tal tarefa. A revolução de Fevereiro lançou o nosso partido na cena política e tornou-lhe, assim, impossível a prossecução de fins puramente científicos. Apesar disso, esta visão fundamental atravessa como fio condutor todas as produções literárias do partido. Em todas elas, em cada caso sempre se prova como a acção todas as vezes brotou de impulsos materiais directos, e não das frases que os acompanhavam e como, pelo contrário, as frases políticas e jurídicas saíram dos impulsos materiais tal como a acção política e os seus resultados.

Quando, depois da derrota da revolução de 1848/1849, houve um momento em que a acção sobre a Alemanha a partir do estrangeiro se tornava cada vez mais impossível, o nosso partido abandonou o terreno das disputas de emigração — pois essa era a única acção possível — à democracia vulgar. Enquanto esta se agitava à saciedade, andando hoje à pancada para amanhã confraternizar e depois de amanhã, novamente, lavar toda a roupa suja diante de toda a gente, enquanto ela ia por toda a América pedir esmola para, logo de seguida, armar um novo escândalo acerca da repartição dos tostões apanhados — o nosso partido ficou contente por, de novo, encontrar alguma calma para estudar. Tinha a grande vantagem de ter uma nova visão científica como base teórica, cuja elaboração lhe dava suficientemente que fazer; logo por isso nunca podia descer tão baixo como os "grandes homens" da emigração.

O primeiro fruto destes estudos é o livro que temos diante de nós.


II


Num escrito como este não se pode tratar de uma mera critica desultória de capítulos isolados da Economia, do tratamento separado desta ou daquela questão económica polémica. Ele visa antes, desde logo, uma visão de conjunto sistemática de todo o complexo da ciência económica, um desenvolvimento coerente das leis da produção burguesa e da troca burguesa. Como os economistas não são mais do que os intérpretes e os apologistas destas leis, este desenvolvimento é, ao mesmo tempo, a crítica de toda a literatura económica.

Desde a morte de Hegel quase nenhuma tentativa foi feita para desenvolver uma ciência no seu próprio encadeamento interno. Da dialéctica do mestre, a escola hegeliana oficial tinha-se apropriado apenas da manipulação dos artifícios mais simples, que aplicava a toda e qualquer coisa e, frequentemente ainda, com uma ridícula falta de jeito. Todo o legado de Hegel se limitava, para ela, a um puro chavão, com a ajuda do qual cada tema era construído de uma forma apropriada, e a um índice de palavras e de maneiras de dizer que não tinham qualquer outro fim do que estarem presentes no momento certo em que as ideias e os conhecimentos positivos faltassem. Aconteceu, assim, que, tal como um professor de Bona disse, estes hegelianos não percebiam nada de nada, mas podiam escrever sobre tudo. E certamente assim era. No entanto, estes senhores, apesar da sua suficiência, tinham, contudo, uma tal consciência da sua debilidade que se mantinham o mais possível afastados das grandes tarefas; a velha e antiquada ciência conservava o seu terreno, em virtude da sua superioridade em saber positivo; e só quando Feuerbach despediu o conceito especulativo é que a hegelianice se foi gradualmente apagando e pareceu que o império da velha metafísica com as suas categorias fixas tinha começado de novo na ciência.

A coisa tinha o seu fundamento natural. Ao regime dos Diádocos[N280] de Hegel, que se tinha perdido em pura fraseologia, seguia-se naturalmente uma época em que o conteúdo positivo da ciência prevalecia de novo sobre o seu lado formal. A Alemanha, porém, lançava-se também ao mesmo tempo com uma energia deveras extraordinária para as ciências da natureza, correspondendo ao poderoso desenvolvimento burguês desde 1848; e com o tornar-se moda destas ciências, em que a tendência especulativa nunca tinha alcançado qualquer valor significativo, a velha maneira metafísica de pensar, inclusive a banalidade wollfiana mais extrema, propagou-se de novo. Hegel tinha desaparecido, desenvolvera-se o novo materialismo das ciências da natureza que, teoricamente, em quase nada se distingue do do século XVIII e que, na maioria dos casos, só tem a vantagem de um material científico-natural mais rico, designadamente químico e fisiológico. Reproduzido até à mais extrema banalidade encontramos o tacanho modo de pensar filisteu do período pré-kantiano de Büchner e de Vogt, e mesmo de Moleschott, que jura por Feuerbach e a cada instante se perde, do modo mais divertido, entre as categorias mais simples. A pileca ancilosada do entendimento quotidiano burguês estaca naturalmente embaraçada perante o fosso que separa a essência do fenómeno, a causa do efeito; mas, quando se vai à caça a cavalo com galgos, no terreno muito acidentado do pensamento abstracto, precisamente, de modo algum, se pode montar uma pileca.

Havia, portanto, aqui uma outra questão para resolver, que não tinha nada a ver com a Economia Política em si. Como tratar da ciência? De um lado, encontrava-se a dialéctica de Hegel, na forma "especulativa", completamente abstracta, em que Hegel a tinha deixado; do outro lado, o método ordinário, essencialmente metafísico-wollfiano, agora novamente na moda, segundo o qual os economistas burgueses tinham escrito os seus grossos livros falhos de coerência. Este último tinha sido de tal modo teoricamente aniquilado por Kant e, sobretudo, por Hegel, que só a inércia e a falta de um outro método simples puderam tornar possível a sua persistência prática. Por outro lado, na sua forma presente, o método de Hegel era absolutamente inutilizável. Ele era essencialmente idealista, e aqui tratava-se de desenvolver uma visão do mundo que era mais materialista do que todas as anteriores. Ele partia do pensamento puro, e aqui devia partir-se dos factos mais obstinados. Um método que, segundo o seu próprio testemunho, "de nada através de nada chegava a nada"[N281], não estava, nesta [sua] forma, de modo algum, no lugar [certo]. Apesar disso, de entre todo o material lógico actual, era o único fragmento a que ao menos se podia ligar. Não tinha sido criticado, não tinha sido superado; nenhum dos adversários do grande dialéctico tinha podido abrir uma brecha no seu glorioso edifício; tinha desaparecido, porque a escola de Hegel não tinha sabido agarrá-lo. Antes do mais, tratava-se, portanto, de submeter o método de Hegel a uma crítica eficaz.

O que distinguia o modo de pensar de Hegel do de todos os outros filósofos era o enorme sentido histórico que lhe estava subjacente. Por abstracta e idealista que fosse a forma, o desenvolvimento do seu pensamento não deixava de ir sempre em paralelo com o desenvolvimento da história universal, e esta última, propriamente, não deverá ser senão a prova do primeiro. Ainda que, por este facto, a relação correcta tenha sido também invertida e posta de pernas para o ar, o seu conteúdo real penetrou, contudo, por todo o lado, na filosofia; tanto mais que Hegel se diferenciava dos seus discípulos em que não se gabava, como eles, da sua ignorância, mas era uma das cabeças mais sábias de todos os tempos. Foi ele o primeiro a procurar mostrar um desenvolvimento, um encadeamento interno, na história e, por estranha que agora muita coisa na sua filosofia da história nos possa parecer, a grandiosidade da própria visão fundamental é ainda hoje digna de admiração, quando se lhe comparam os seus predecessores ou mesmo aqueles que depois dele se permitiram reflexões universais sobre a história. Na Fenomenologia, na Estética, na História da Filosofia, por toda a parte perpassa esta grandiosa concepção da história e, por toda a parte, a matéria é tratada historicamente, numa conexão determinada, ainda que também abstractamente distorcida, com a história.

Esta concepção da história que fez época foi o pressuposto teórico directo da nova visão materialista e, já por este facto, fornecia também um ponto de partida para o método lógico. Se esta dialéctica desaparecida, a partir da posição do "pensamento puro", tinha conduzido já a semelhantes resultados, se, além disso, tinha acabado, como que a brincar, com toda a lógica e a metafísica anteriores, tinha em todo o caso de haver nela mais do que sofística e bizantinice. Mas a crítica deste método, perante a qual toda a filosofia oficial tinha recuado e recua ainda, não era coisa de pouca monta.

Marx era, e é, o único que podia entregar-se ao trabalho de tirar da casca da lógica hegeliana o núcleo que encerra as descobertas reais de Hegel neste domínio e de restabelecer o método dialéctico, despido das suas roupagens idealistas, na forma simples em que ele se torna a única forma correcta de desenvolvimento do pensamento. Consideramos a elaboração do método que está na base da crítica de Marx à Economia Política como um resultado que, pelo seu significado, em quase nada é inferior à visão materialista fundamental.

Mesmo depois de adquirido o método, a crítica da Economia podia ainda ser abordada de duas maneiras: historicamente ou logicamente. Como na história, tal como no seu reflexo literário, o desenvolvimento, a traços largos, progride das relações mais simples para as mais complicadas, o desenvolvimento histórico-literário da Economia Política fornecia um fio condutor natural a que a crítica se podia ligar e, a traços largos, as categorias económicas apareceriam na mesma ordem do que o desenvolvimento lógico. Esta forma tem aparentemente a vantagem de uma maior clareza, pois, assim, segue-se o desenvolvimento real; de facto, porém, no máximo tornar-se-ia apenas mais popular. A história procede frequentemente por saltos e em ziguezague e, se houvesse que segui-la ao mesmo tempo por toda a parte, teria não apenas de recolher muito material de pouca importância, como também o curso do pensamento teria frequentemente que ser interrompido; além disso, não se poderia escrever a história da economia sem a da sociedade burguesa e, deste modo, o trabalho tornar-se-ia infindável, uma vez que faltam os trabalhos preparatórios. Portanto, o modo lógico de tratamento era o único que estava no seu lugar. Este [modo], porém, não é de facto senão o histórico, despido apenas da forma histórica e das casualidades perturbadoras. Por onde esta história começa, por aí tem de começar igualmente o curso do pensamento, e o seu avanço ulterior não será mais do que o reflexo, numa forma abstracta e teoricamente consequente, do decurso histórico; um reflexo corrigido, mas corrigido segundo leis que o próprio decurso histórico real fornece, na medida em que cada momento pode ser considerado no ponto de desenvolvimento da sua plena maturidade, da sua forma clássica.

Com este método, partimos da primeira e mais simples relação que historicamente, facticamente, se nos apresenta — neste caso, portanto, da primeira relação económica com que deparamos. Analisamos esta relação. Pelo facto de que é uma relação, acontece já que tem dois lados que se relacionam um com o outro. Cada um destes lados é considerado por si; decorre daí o modo do seu relacionamento mútuo, a sua acção recíproca. Dar-se-ão contradições que reclamam uma solução. Como, porém, não consideramos aqui um processo de pensamento abstracto, que se passa apenas na nossa cabeça, mas um processo real, que se passou realmente ou ainda se passa num tempo qualquer, estas contradições desenvolveram-se na prática e verosimilmente encontraram [aí] a sua solução. Seguiremos o modo dessa solução e verificaremos que foi causada pela produção de uma nova relação, cujos dois lados contrapostos teremos doravante que desenvolver, etc.

A Economia Política começa com a mercadoria, com o momento em que produtos são trocados por outros, quer por indivíduos quer por comunidades naturais. O produto que entra na troca é mercadoria. Ele só é, porém, mercadoria porque à coisa, ao produto, se liga uma relação entre duas pessoas ou comunidades, a relação entre o produtor e o consumidor, que aqui não mais se encontram unidos na mesma pessoa. Temos aqui, desde logo, um exemplo de um facto peculiar que perpassa toda a Economia e estabeleceu uma lamentável confusão na cabeça dos economistas burgueses: a Economia não trata de coisas, mas de relações entre pessoas e, em última instância, entre classes; estas relações estão, porém, sempre ligadas a coisas e aparecem como coisas. Esta conexão que, em casos isolados, este ou aquele economista, sem dúvida vislumbrou, descobriu-a Marx pela primeira vez no seu valor para toda a Economia e, por esse facto, tornou as questões mais difíceis de tal modo simples e claras que agora mesmo os economistas burgueses as poderão compreender.

Se considerarmos agora a mercadoria segundo os seus vários aspectos e, designadamente, a mercadoria tal como se desenvolveu completamente, e não tal como ela só penosamente se desenvolve no comércio de troca natural de duas comunidades primitivas, ela apresenta-se-nos sob os dois pontos de vista de valor de uso e de valor de troca; e entramos aqui, de pronto, no domínio do debate económico. Quem quiser ter um exemplo flagrante de como o método dialéctico alemão, no seu estádio actual de formação, é superior ao antigo [método] metafísico, chão e politiqueiro, pelo menos tanto como os caminhos-de-ferro o são relativamente aos meios de transporte da Idade Média, leia, em Adam Smith ou em qualquer outro economista oficial de nomeada, que suplícios o valor de troca e o valor de uso causaram a estes senhores, como se torna para eles difícil distingui-los ordenadamente e apreender cada um deles na sua própria determinatez [Bestimmtheit], e faça a comparação com o desenvolvimento simples e claro de Marx.

Ora, uma vez desenvolvidos o valor de uso e o valor de troca, a mercadoria é apresentada como unidade imediata de ambos, tal como entra no processo de troca. Que contradições é que aqui se dão pode ler-se nas páginas 20-21(4*). Observamos apenas que estas contradições não têm só um interesse teórico, abstracto, mas que reflectem, ao mesmo tempo, as dificuldades provenientes da natureza da relação de troca imediata, do comércio de troca simples, as impossibilidades a que necessariamente chega esta primeira forma grosseira de troca. A solução destas impossibilidades encontra-se no facto de a propriedade de representar o valor de troca de todas as outras mercadorias ser transposta para uma mercadoria especial — o dinheiro. O dinheiro, ou a circulação simples, é, então, desenvolvido no segundo capítulo e, designadamente: 1. o dinheiro como medida dos valores, pelo que, então, o valor medido em dinheiro, o preço, recebe a sua determinação mais aproximada; 2. como meio de circulação, e 3. como unidade de ambas as determinações como dinheiro real, como representante de toda a riqueza material burguesa. Com isto termina o desenvolvimento do primeiro fascículo, reservando-se o segundo para a passagem do dinheiro a capital.

Vê-se como com este método o desenvolvimento lógico não precisa de se manter no domínio puramente abstracto. Pelo contrário, ele requer a ilustração histórica, o contacto contínuo com a realidade. Estes elementos de referência são inseridos, portanto, também com grande diversidade e, designadamente, tanto as alusões ao decurso histórico real em diferentes estádios do desenvolvimento social como à literatura económica, em que, desde o princípio, se procura a elaboração clara das determinações das relações económicas. A crítica dos modos singulares mais ou menos unilaterais ou confusos de conceber [a matéria], no essencial, está já dada, então, no próprio desenvolvimento lógico e pode ser brevemente exposta.

Num terceiro artigo, entraremos no conteúdo económico do próprio livro[N274].

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Notas de rodapé:

(1*) Ver o presente tomo, pp. 529-533. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(2*) Ver o presente tomo, pp. 530-531. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(3*) Em francês no texto: liberdade, igualdade, fraternidade. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(4*) Ver Karl Marx, Para a Crítica da Economia Política. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

Notas de Fim de Tomo:

[N5] Diádocos: generais de Alexandre Magno que, após a sua morte, iniciaram uma aguda luta entre si pela conquista do poder. No decurso desta luta (fim do século IV e início do século III antes da nossa era) a monarquia de Alexandre, que constituía em si mesma uma união militar-administrativa sem solidez, dividiu-se numa série de Estados separados. (retornar ao texto)

[N15] Sistema continental ou bloqueio continental: proibição, imposta em 1806 por Napoleão I aos países do continente europeu, de comerciarem com a Inglaterra. O bloqueio continental caiu após a derrota de Napoleão na Rússia. (retornar ao texto)

[N148] Free-traders (livre-cambistas): partidários da liberdade de comércio e da não intervenção do Estado na vida económica. Nos anos 40-50 do século XIX os livre-cambistas constituíram um agrupamento político à parte, que posteriormente entrou para o Partido Liberal. (retornar ao texto)

[N165] Zollverein (União Aduaneira), fundada em 1834 sob os auspícios da Prússia. Agrupava quase todos os Estados alemães; estabelecendo uma fronteira alfandegária comum, facilitou a futura unificação política da Alemanha. (retornar ao texto)

[N274] Este artigo de Engels é uma recensão do livro de K. Marx Para a Crítica da Economia Política. Engels caracteriza-o como eminente conquista científica do partido proletário e importante etapa da elaboração da concepção científica proletária do mundo. A recensão ficou por acabar. Publicaram-se apenas as duas primeiras partes. A terceira parte, na qual Engels se propunha fazer uma análise do conteúdo económico do livro, não apareceu impressa devido à suspensão do jornal; o manuscrito não foi encontrado. (retornar ao texto)

[N275] Reforma: vasto movimento contra a Igreja Católica que conquistou muitos países europeus no século XVI. Na maioria dos países o movimento da Reforma foi acompanhado por grandes batalhas de classe; a guerra camponesa de 1524-1525 na Alemanha decorreu sob a bandeira ideológica da Reforma. (retornar ao texto)

[N276] Guerra dos Trinta Anos (1618-1648): guerra europeia geral suscitada pela luta entre os protestantes e os católicos. A Alemanha tornou-se o campo principal desta luta e foi objecto da pilhagem militar e das pretensões de conquista dos participantes na guerra. (retornar ao texto)

[N277] Entre 1477 e 1555 a Holanda fez parte do Sacro Império Romano-Germânico; depois da dissolução deste caiu sob o domínio da Espanha. Em resultado da revolução burguesa do século XVI a Holanda libertou-se do domínio espanhol e tornou-se uma república burguesa independente. (retornar ao texto)

[N278] Cameralística: sistema de disciplinas administrativas, financeiras, económicas e outras ensinadas nas universidades medievais, e mais tarde também nas universidades burguesas, de vários países da Europa. (retornar ao texto) (retornar ao texto)

[N279] Das Volk (O Povo): jornal publicado em língua alemã em Londres de 7 de Maio a 20 de Agosto de 1859 com a participação directa de Marx; no início de Julho tornou-se de facto seu redactor. (retornar ao texto)

[N280] Aqui, alusão irónica aos hegelianos de direita que, nos anos 30-40 do século XIX, ocupavam muitas cátedras em universidades alemãs e que utilizavam a sua posição para atacar os representantes de tendências mais radicais em filosofia. Sobre os diádocos ver a nota 5. (retornar ao texto)

[N281] Ver Wissenschaft der Logik, Teill, Abt. 2 (Ciência da Lógica, de Hegel, primeira parte, secção 2). (retornar ao texto)

Deslocamentos do Centro de Gravidade Mundial -Karl Marx -Fevereiro 1850

Deslocamentos do Centro de Gravidade Mundial

Karl Marx

Fevereiro 1850


Escrito: 1850
Primeira Edição: Artigo publicado na Nova Gazeta Renana. Revista Política e Económica Nº2 Fevereiro de 1850.
Fonte: amavelmente cedido por GeoEconomia.
Tradução: Jason Borba.
HTML de José Braz para o Marxist Internet Archive.


Vamos agora ocupar-nos da América, onde sucedeu algo mais importante do que a revolução de Fevereiro [1848]: a descoberta das minas de ouro californianas. Dezoito meses após o acontecimento já é possível prever que terá efeitos mais consideráveis do que a própria descoberta da América. Ao longo de três séculos todo o comércio da Europa em direção ao Pacífico contornou, com paciência admirável, o cabo da Boa-Esperança ou o cabo Horn. Todos os projetos de praticar uma abertura no istmo do Panamá falharam devido às rivalidades e invejas mesquinhas dos povos comerciantes. Dezoito meses após a descoberta das minas de ouro californianas, os yankees começaram já a construir uma estrada de ferro, uma grande estrada e um canal no Golfo do México. E já existe uma linha regular de barcos a vapor de Nova Iorque a Chagres, do Panamá a S. Francisco, concentrando-se no Panamá o comércio com o Pacífico e deixando de se utilizar a rota do cabo Horn. O vasto litoral da Califórnia, com 30 graus de latitude, um dos mais belos e mais férteis do mundo, por assim dizer desabitado, vai se transformando rapidamente num rico país civilizado, densamente povoado por homens de todas as raças, do yankee ao chinês, ao negro, ao índio e ao mulato, do crioulo e mestiço ao europeu. O ouro californiano corre abundante em direção à América e à costa asiática do Pacífico, e os povos bárbaros mais passivos são arrastados para o comércio mundial e para a civilização.

Uma segunda vez o comércio mundial muda de direção. O que eram, na Antiguidade, Tir, Cartago e Alexandria, na Idade Média, Génova e Veneza, e, até agora, Londres e Liverpool, a saber, os empórios do comércio mundial, serão no futuro Nova Iorque e São Francisco, São João de Nicarágua e Leão, Chagres e Panamá. O centro de gravidade do mercado mundial era a Itália, na Idade Média, a Inglaterra na era moderna, e é hoje a parte meridional da península norte-americana.

A indústria e o comércio da velha Europa terão que fazer esforços terríveis para não caírem na decadência, como aconteceu com a indústria e o comércio da Itália no século XVI, isto se a Inglaterra e a França não quiserem tornar-se o que são hoje Veneza, Génova e a Holanda. Daqui a alguns anos teremos uma linha regular de transporte marítimo a vapor da Inglaterra a Chagres, de Chagres e São Francisco a Sidney, Cantão e Singapura.

Graças ao ouro californiano e à energia inesgotável dos yankees, os dois lados do Pacífico serão em breve tão povoados e tão ativos no comércio e na indústria como o é atualmente a costa de Boston a Nova Orleans. O oceano Pacífico desempenhará no futuro o mesmo papel que foi do Atlântico na nossa era e do Mediterrâneo na Antiguidade: o de grande via marítima do comércio mundial, e o oceano Atlântico descerá ao nível de um mar interior, como é hoje o caso do Mediterrâneo.

A única probabilidade que têm os países civilizados da Europa de não caírem na mesma dependência industrial, comercial e política da Itália, da Espanha e do Portugal modernos é iniciarem uma revolução social que, enquanto ainda é tempo, adapte a economia à distribuição segundo as exigências da produção e das capacidades produtivas modernas, e permita o desenvolvimento de novas forças de produção que assegurem a superioridade da indústria europeia, compensando assim os inconvenientes da sua localização geográfica.

Enfim, uma curiosidade característica da China, contada pelo conhecido missionário alemão Gutzlaff. Uma excessiva população, de crescimento lento mas regular, tinha provocado, já desde há muito tempo, uma tensão violenta nas relações sociais da maior parte da nação. Em seguida vieram os ingleses, que forçaram a abertura de cinco portos ao livre comércio. Milhares de navios ingleses e americanos singraram para a China, que, em pouco temo, foi inundada de produtos britânicos e americanos baratos. A indústria chinesa, essencialmente de manufaturas, sucumbiu à concorrência do maquinismo. O inabalável Império sofreu uma crise social. Os impostos deixaram de entrar, o Estado encontrou-se à beira da falência, a grande massa da população conheceu a completa pobreza, e revoltou-se. Acabando com a veneração aos mandarins do Imperador e aos bonzos, perseguia-os e matava-os. Hoje, o país está à beira do abismo, e talvez sob a ameaça de uma revolução violenta.

Mais ainda. No seio da plebe insurreta, alguns denunciavam a miséria de uns e a riqueza de outros, exigindo nova repartição dos bens, e mesmo a supressão total da propriedade privada - e ainda hoje continuam a formular tais reivindicações. Após vinte anos de ausência, quando o sr. Gutzlaff regressou ao contacto dos civilizados e dos europeus, e ouviu falar do socialismo, exclamou aterrorizado:"Não poderei então escapar em lado nenhum a esta perniciosa doutrina? É exatamente isso o que apregoam há algum tempo muitos indivíduos da população chinesa!"

É muito provável que o socialismo chinês se assemelhe ao europeu como a filosofia chinesa ao hegelianismo. Qualquer que seja a forma podem alegrar-nos com o fato de que o Império mais antigo e sólido do mundo tenha sido arrastado em oito anos, pelos fardos de algodão dos burgueses da Inglaterra, até a iminência de uma convulsão social que, qualquer que seja o caso, deve ter consequências importantíssimas para a civilização. E, quando os reacionários europeus, na sua já próxima fuga, chegarem enfim junto à Muralha da China, às portas que supõem abrir-se como fortaleza da reação e do conservadorismo, quem sabe se não lerão ali:

República Chinesa
Liberdade, Igualdade e Fraternidade

domingo, 10 de junho de 2012

Contribuição Para a História do Cristianismo Primitivo Friederich Engels 1895


Contribuição Para a História do Cristianismo Primitivo
Friederich Engels
1895


1ª Edição: Die Neue Zeit, em 1894-95
Tradução:....
Transcrição: Rodrigo Jacob, julho 2007
HTML: Fernando A. S. Araújo, julho 2007


EDIÇÃO PESSOAL:

I
A história do cristianismo primitivo oferece curiosos pontos de contato com o movimento operário moderno. Como este, o cristianismo era, na origem, o movimento dos oprimidos: apareceu primeiro como a religião dos escravos e dos libertos, dos pobres e dos homens privados de direitos, dos povos subjugados ou dispersos por Roma. Os dois, o cristianismo como o socialismo operário, pregam uma libertação próxima da servidão e da miséria; o cristianismo transpõe essa libertação para o Além, numa vida depois da morte, no céu; o socialismo coloca-a no mundo, numa transformação da sociedade. Os dois são perseguidos e encurralados, os seus aderentes são proscritos e submetidos a leis de exceção, uns como inimigos do gênero humano, os outros como inimigos do governo, da religião, da família, da ordem social. E, apesar de todas as perseguições, e mesmo diretamente servidos por elas, um e outro abrem caminho vitoriosamente. Três séculos depois do seu nascimento, o cristianismo é reconhecido como a religião do Estado e do Império romano: em menos de sessenta anos, o socialismo conquistou uma posição tal que o seu triunfo definitivo está absolutamente assegurado.
Consequentemente, se o Sr. Professor A. Menger, no seu “Direito ao Produto Integral do Trabalho”, se espanta de que, sob os imperadores romanos, tendo em vista a colossal centralização das riquezas e os sofrimentos infinitos da classe trabalhadora, composta essencialmente de escravos, o socialismo não tenha sido implantado depois da queda do Império romano ocidental”, é porque precisamente não vê que esse “socialismo”, na medida em que era possível na época, existia efetivamente e chegava ao poder. . . com o cristianismo. Só que o cristianismo, como tinha fatalmente de ser, considerando as condições históricas, não queria a transformação social neste mundo, mas no Além, no céu, na vida eterna depois da morte, no millenium eminente.
Já na Idade Média o paralelismo dos dois fenómenos se impõe, quando dos primeiros levantamentos dos camponeses oprimidos e, sobretudo, dos plebeus das cidades. Esses levantamentos, tal como todos os movimentos de massas na Idade Média, tiveram necessariamente uma máscara religiosa; aparecem como restaurações do cristianismo primitivo em consequência de uma degenerescência crescente, mas atrás da exaltação religiosa escondem-se, regularmente, interesses muito positivos deste mundo.
Isso transparecia de uma maneira grandiosa na organização dos taboritas da Boêmia sob João Zizka, de gloriosa memória. Mas este traço presiste através de toda a Idade Média, até que desaparece pouco a pouco, depois da guerra dos camponeses na Alemanha, para reaparecer entre os operários comunistas depois de 1830. Os comunistas revolucionários franceses, tal como Weitling e os seus aderentes, afirmavam-se ligados ao cristianismo primitivo muito antes de Renan ter dito:
Se quiserem fazer uma idéia das primeiras comunidades cristãs, observem uma seção local da Associação Internacional de Trabalhadores.
O homem de letras francês que, graças a uma exploração da crítica bíblica alemã, sem exemplo mesmo no jornalismo moderno, confeccionou o seu romance sobre a história da Igreja, “As Origens do Cristianismo”, não sabia tudo o que havia de verdade na sua frase. Eu queria ver o antigo internacionalista capaz de ler, por exemplo, a segunda “Epístola aos Coríntios”, atribuída a Paulo, sem que, pelo menos num ponto, antigas feridas não reabrissem nele.
A “Epístola” inteira, a partir do VIII capítulo, ecoa da eterna queixa demasiado bem conhecida: “As cotizações não entram.” Por volta de 1865, quantos, entre os mais zelosos propagandistas, não teriam apertado a mão do autor desta carta, quem quer que ele fosse, com uma simpática inteligência, murmurando-lhe ao ouvido: “Então, irmão, também isso te aconteceu a ti!” Também nós teríamos muito a dizer acerca disso — também na nossa associação pululam os coríntios —, essas cotizações que não apareciam, que, inalcançáveis, giravam diante dos nossos olhos de Tântalo, eis o que constituía os famosos milhões da Internacional.
Uma das nossas melhores fontes sobre os primeiros cristãos é Luciano de Samosata, o Voltaire da antigüidade clássica, que mantinha a mesma atitude cética em relação a todas as espécies de superstições religiosas e que, portanto, não tinha motivos — nem por crença pagã nem por política — para tratar os cristãos diferentemente de qualquer outra associação religiosa. Pelo contrário, acusa a todos da sua superstição, tanto aos adoradores de Júpiter como aos adoradores de Cristo: do seu ponto de vista rasamente racionalista, um gênero de superstição é tão inepto como o outro. Esta testemunha, de qualquer maneira imparcial, conta, entre outras coisas, a biografia de um aventureiro, Peregrinus, que se chamava na realidade Proteu de Parium sobre o Helesponto. O dito Peregrinus começou na sua juventude, na Armênia, por um adultério. Foi apanhado em flagrante delito e linchado segundo o costume do país. Felizmente conseguiu escapar, estrangulou Parium, o seu velho pai, e teve de fugir.
Foi por essa época que se fez instruir na admirável religião dos cristãos, contactando na Palestina com alguns dos seus padres e escribas. Que vos hei-de dizer acerca disso? Esse homem depressa lhes fez ver que eles não passavam de crianças; profeta, tiasarco, chefe de assembléia, tudo ele foi sozinho, interpretando os seus livros, explicando-os, compondo-os por iniciativa própria. Por isso muita gente o olhava como a um deus, um legislador, um pontífice, igual a esse que é honrado na Palestina, onde foi posto numa cruz por ter introduzido esse novo culto entre os homens. Proteu, tendo por este motivo sido detido, foi posto na prisão. Desde o momento que foi posto a ferros, os cristãos, considerando-se como presos nele, tudo fizeram para o libertar; mas, não o conseguindo, renderam-lhe pelo menos toda a espécie de honras com um zelo e uma dedicação infatigáveis. Desde a manhã, viam-se à volta da prisão uma multidão de mulheres velhas, de viúvas, de órfãos. Os principais chefes da seita passavam a noite junto dele, depois de terem corrompido os carcereiros: para lá levavam as suas refeições e liam os seus livros santos; e o virtuoso Peregrinus, ele ainda se chamava assim, era por eles tratado de novo Sócrates. Não é tudo; várias cidades da Ásia lhe enviaram deputados em nome de cristãos, para lhe prestar assistência, lhe servirem de apoio, de advogados e de consoladores. Era inacreditável a dedicação em tais ocorrências; para tudo dizer, nada lhes custava. Desse modo Peregrinus, sob o pretexto da sua prisão, viu chegarem grandes quantidades de dinheiro e acumulou muito. Esses infelizes acreditam que são imortais e que viverão eternamente; em consequência, desprezam os suplícios e entregam-se voluntariamente à morte. O seu primeiro legislador ainda os convenceu de que eles são todos irmãos. Desde que mudaram de culto, renunciaram aos deuses gregos e adoram o sofista crucificado de quem seguem as leis. Desprezam igualmente todos os bens e põem-nos em comum, pela fé completa que têm nas suas palavras. De forma que, se aparece entre eles um impostor, um patife decidido, ele não terá dificuldade em enriquecer rapidamente, rindo-se por trás da sua simplicidade. Contudo, Peregrinus depressa foi libertado pelo governador da Síria.
Depois de outras aventuras, diz-se:
Peregrinus retomou, pois, a sua vida errante, acompanhado nas suas vagabundagem por um grupo de cristãos que lhe servem de satélites e lhe subvencionam abundantemente as suas necessidades. Ele fez-se assim alimentar durante algum tempo. Mas depois, tendo violado alguns dos seus preceitos (tinham-no visto comer carne proibida), foi abandonado pelo seu cortejo e reduzido à pobreza.
Quantas recordações de juventude acordam em mim ao ler esta passagem de Luciano. Eis primeiro o “profeta Albrecht”, que por volta de 1840 e durante alguns anos tornava pouco seguras — à letra — as comunidades comunistas de Weittling na Suíça. Era um homem grande e forte, que percorria a Suíça a pé, à procura de um auditório para o seu novo evangelho da libertação do mundo. No fim de contas, parece ter sido um trapalhão bastante inofensivo e morreu cedo. Eis o seu sucessor, menos inofensivo, o “Dr.” Jorge Kuhlmann de Holstein, que aproveitou o tempo em que Weittling esteve na prisão para converter os comunistas da Suíça francesa ao seu próprio evangelho e que, por um tempo, o conseguiu tão bem que conquistou até o mais espiritual e ao mesmo tempo o mais boêmio de todos eles, August Becker. Depressa Kuhlmann dava conferências que foram publicadas em Gênova em 1845 sob o título: “O Novo Mundo ou o Reino do Espírito Sobre a Terra. Anunciação”. E na introdução, redigida, segundo toda a probabilidade, por Becker, lê-se.
Faltava um homem na boca de quem todos os nossos sofrimentos, todas as nossas esperanças e todas as nossas aspirações, numa palavra, tudo o que agita mais profundamente o nosso tempo, encontrasse uma voz... Esse homem que a nossa época esperava, apareceu. É o Dr. Jorge Kuhlmann de Holstein. Ele surgiu com a doutrina do novo mundo ou do reino do espírito na realidade.
Será necessário dizer que essa doutrina do novo mundo não passava do mais banal sentimentalismo, traduzido em fraseologia semibíblica à Lamennais e debitada com arrogância de profeta? O que não impedia os bons discípulos de Weittling de andarem com atenções para com esse charlatão, tal como os cristãos da Ásia tinham feito em relação a Peregrinus. Eles, que, de ordinário, eram arquidemocratas e igualitários, a ponto de alimentarem desconfianças inextinguíveis para com todo o mestre-escola, todo o jornalista, todos aqueles que não eram operários manuais, como se eles fossem outros tantos “sábios” procurando explorá-los, eles deixaram-se persuadir por esse Kuhlmann, com os seus atavios de melodrama, de que, no “novo mundo”, o mais sábio, id est Kuhlmann, regulamentaria a repartição dos prazeres e que, portanto, já no velho mundo, os discípulos deviam fornecer alqueires de prazeres ao mais sábio e contentarem-se com migalhas. E Peregrinus-Kuhlmann viveu na alegria e na abundância... enquanto isso durou. Na verdade tal não durou muito; o descontentamento crescente dos céticos e dos incrédulos, as ameaças de perseguição do governo, puseram fim ao reino do espírito em Lausanne; Kuhlmann desapareceu.
Exemplos análogos virão às dezenas à memória daqueles que conheceram por experiência o começo do movimento operário na Europa. Na hora atual, casos tão extremos tornaram-se impossíveis, pelo menos nos grandes centros; mas em localidades perdidas, em que o movimento conquista um terreno virgem, um qualquer Peregrinus deste tipo poderia ainda conseguir um sucesso momentâneo e relativo. E, tal como em todos os países aflui para o partido operário toda a gente que já nada tem a esperar do mundo oficial, ou que nele se queimou — tal como os adversários da vacinação, os vegetarianos, os antivivecionistas, os partidários da medicina dos simples, os pregadores das congregações dissidentes a quem as ovelhas fugiram, os autores de novas teorias acerca da origem do mundo, os inventores falhados ou infelizes, as vítimas de reais ou imaginárias irregularidades a quem a burocracia chama “refilões inúteis”, os honestos imbecis e os desonestos impostores —, o mesmo acontecia com o cristianismo. Todos os elementos que o processo de dissolução do antigo mundo tinha atirado, sucessivamente, para o círculo de atração do cristianismo, o único elemento que resistia a essa dissolução — precisamente porque se tratava de um produto especial — e que, portanto, subsistia e crescia, enquanto que os outros elementos não passavam de moscas efêmeras. Todas as exaltações, extravagâncias, loucuras ou golpes sujos que foram tentados em relação às jovens comunidades cristãs, todas, temporariamente e em certas localidades, encontraram ouvidos atentos e crentes dóceis. E, tal como os comunistas das nossas primeiras comunidades, os primeiros cristãos eram de uma credulidade espantosa em relação a tudo que parecia convir à sua doutrina, de modo que não podemos saber realmente se, dos numerosos escritos que Peregrinus compôs para a cristandade, não haverá, aqui e ali, qualquer fragmento que tenha escapado para o nosso novo Testamento.


II

A crítica bíblica alemã, até agora a única base científica do nosso conhecimento da história do cristianismo primitivo, seguiu uma dupla tendência.
Uma dessas tendências é representada pela escola de Tubingue, à qual, em sentido lato, pertence também D. F. Strauss. Ela vai tão longe no exame crítico quanto uma escola teológica poderia ir. Admite que os quatro Evangelhos não são comunicações de testemunhas oculares, mas arranjos ulteriores de escritos perdidos, e que, no máximo, quatro das Epístolas atribuídas a S. Paulo são autênticas etc. Ela afasta da narração histórica, como inadmissíveis, todos os milagres e todas as contradições; do que resta, ela “procura salvar tudo o que pode ser salvo” e, por aí, transparece claramente o seu carácter de escola teológica. E é graças a essa escola que Renan, o qual, em grande parte, se apoia nela, pôde, aplicando o mesmo método, operar ainda muitos outros “salvamentos”. Além de numerosas exposições mais que duvidosas do Novo Testamento, ele quer ainda impor-nos uma quantidade de lendas de mártires como historicamente autenticadas. Em todo o caso, tudo o que a escola de Tubingue rejeita do Novo Testamento como apócrifo, ou como não sendo histórico, pode ser considerado como definitivamente afastado pela ciência.
A outra tendência é representada por um único homem: Bruno Bauer. O seu grande mérito é ter, impiedosamente, criticado os Evangelhos e as Epístolas apostólicas, ter sido o primeiro a encarar seriamente o exame dos elementos não só judaicos e greco-alexandrinos, mas também gregos e greco-romanos que permitiram ao cristianismo tornar-se uma religião universal. A lenda do cristianismo nascido integralmente do judaísmo, partindo da Palestina para conquistar o mundo com uma dogmática e uma ética traçadas nas suas grandes linhas, tornou-se impossível depois de Bruno Bauer; a partir de então ela pode, no máximo, continuar a vegetar nas faculdades teológicas e no espírito de quem quer “conservar a religião para o povo”, mesmo à custa da ciência. Na formação do cristianismo, tal como foi elevado à categoria de religião de Estado por Constantino, a Escola de Philon de Alexandria e a filosofia vulgar greco-romana — platónica e sobretudo estóica — desempenharam importante papel. Essa contribuição está longe de ter sido estabelecida nos detalhes, mas o fato está demonstrado, e tal deve-se, sobretudo, a Bruno Bauer; ele lançou as bases da prova de que o cristianismo não foi importado de fora, da Judéia, e imposto ao mundo greco-romano, mas que é, pelo menos na forma que adquiriu como religião universal, o mais autêntico produto desse mundo. Naturalmente que, nesse trabalho, Bauer exagerou bastante, como acontece a todos que combatem preconceitos inveterados. Na intenção de determinar, mesmo do ponto de vista literário, a influência de Philon, e sobretudo de Sêneca, sobre o cristianismo nascente, e de representar formalmente os autores do Novo Testamento como plagiários desses filósofos, é obrigado a retardar o aparecimento da nova religião em meio século, a rejeitar as narrativas de historiadores romanos que a isso se opõem e, em geral, a tomar graves liberdades com a história conhecida. Segundo ele, o cristianismo como tal só aparece sob os imperadores Flavianos, a literatura do Novo Testamento só sob Adriano, Antonino e Marco Aurélio. Portanto, Bauer faz desaparecer todo o fundo histórico para as narrativas do Novo Testamento relativas a Jesus e aos seus discípulos; resolvem-se em lendas em que as fases de desenvolvimento interno e os conflitos morais das primeiras comunidades são transpostos e atribuídos a personagens mais ou menos fictícias. Não são a Galiléia nem Jerusalém, segundo Bauer, os lugares de nascimento da nova religião, mas sim Alexandria e Roma.
Assim, se no resíduo, que não contesta, da história e da literatura do Novo Testamento, a escola de Tubingue nos oferece o extremo máximo do que a ciência pode, ainda nos nossos dias, aceitar como estando sujeito a controvérsia, Bruno Bauer representa o máximo de contestação que ela se pode permitir. A verdade situa-se entre estes extremos. Que esta, com os nossos meios atuais, seja suscetível de ser determinada, eis o que parece bem problemático. Novas descobertas, como em Roma, no Oriente e sobretudo no Egito, darão um contributo muito mais decisivo do que toda a crítica.
Ora, existe no Novo Testamento um único livro de que é possível, com margem de alguns meses, fixar a data da redacção; ele deve ter sido escrito entre junho de 67 e janeiro ou abril de 68; é um livro que, por consequência, pertence aos mais longínquos tempos cristãos, que reflete as ideias dessa época com a mais ingénua sinceridade e na língua idiomática que lhe corresponde; que, de início, é, na minha opinião, muito mais importante para determinar o que foi realmente o cristianismo primitivo que todo o resto do Novo Testamento, muito posterior em data na sua redação atual. Esse livro é o que se chama o apocalipse de João; e como, ainda por cima, esse livro, em aparência o mais obscuro de toda a Bíblia, se tornou hoje, graças à crítica alemã, o mais compreensível e o mais transparente de todos, proponho-me falar dele aos nossos leitores.
Basta uma olhadela sobre esse livro para nos apercebermos do estado de exaltação não só do autor mas também do “meio” em que vivia. O nosso “Apocalipse” não é o único da sua espécie e do seu tempo. Do ano 164 antes da nossa era, data do primeiro que chegou até nós — o livro de Daniel —, até cerca de 250 da nossa era, data aproximativa do “Carmen” de “Comodiano, Renan não conta menos de 15 “Apocalipses” clássicos chegados até nós, sem falar das imitações ulteriores. (Cito Renan porque o seu livro é o mais acessível e o mais conhecido fora dos círculos dos especialistas.) Foi uma época em que, em Roma e na Grécia, e muito mais ainda na Ásia Menor, na Síria e no Egito, uma mistura absolutamente casual das mais crassas superstições dos mais diversos povos era aceita sem exame e completada por piedosas fraudes e por um charlatanismo direto, em que os milagres, os êxtases, as visões, a adivinhação, a alquimia, a cabala e outras bruxarias ocultas ocupavam o primeiro lugar. Foi nessa atmosfera que o cristianismo primitivo nasceu, e ainda numa classe mais do que qualquer outra acessível a essas quimeras. Assim, os gnósticos cristãos do Egito, como o provam, entre outras coisas, o papiro de Leyde, dedicaram-se, no século II da época cristã, fortemente à alquimia, e incorporaram noções de alquimia nas suas doutrinas. E os “mathe matici” caldeus e judeus que, segundo Tácito, foram por duas vezes, sob Cláudio e ainda sob Vittelius, expulsos de Roma por magia, as únicas “astúcias” de geometria a que se dedicavam eram aquelas que encontraremos em pleno no “Apocalipse” de João.
A isto acrescenta-se que todos os apocalipses se julgam no direito de enganar os seus leitores. Não só são, geralmente, escritos por outras pessoas — na maioria mais recentes — diferentes dos pretensos autores, por exemplo o livro de Daniel, o livro de Enoch, os “Apocalipses” de Esdras, de Baruch, de Juda etc., os livros sibilinos, como no fundo não profetizam senão coisas conhecidas há muito tempo e perfeitamente conhecidas do verdadeiro autor. Foi assim que no ano de 164, pouco tempo antes da morte de Antiochus Epifano, o autor do livro de Daniel, que era suposto viver na época de Nabucodonosor, fez predizer a Daniel a subida e o declínio da hegemonia da Pérsia e da Macedónia, e o começo do Império mundial de Roma, para preparar os seus leitores, por essa prova dos seus dons proféticos, a aceitar a sua profecia final: que o povo de Israel ultrapassará todos os seus sofrimentos e será, enfim, vitorioso. Assim, se o “Apocalipse” de João fosse realmente obra do autor pretendido, constituiria a única excepção na literatura apocalíptica.
O João que se propõe para autor era em todo o caso um homem muito considerado entre os cristãos da Ásia Menor. O tom das cartas às sete Igrejas é disso garantia. Poderia pois admitir-se que fosse o apóstolo João cuja existência histórica, se não é absolutamente atestada, é pelo menos muito possível. E se esse apóstolo fosse efetivamente o autor, não se poderia pretender melhor para a nossa tese. Seria a melhor prova de que o cristianismo desse livro é o verdadeiro cristianismo primitivo. Está provado, diga-se de passagem, que o “Apocalipse” não é do mesmo autor do Evangelho ou das três “Epístolas” atribuídas a João.
O “Apocalipse” compõe-se de uma série de visões. Na primeira, o Cristo aparece, vestido de padre, caminhando entre sete castiçais de ouro, que representam as sete Igrejas da Ásia e dita a “João” cartas aos sete “anjos” dessas Igrejas da Ásia. Desde o início, a diferença manifesta-se gritante entre este cristianismo e a religião universal de Constantino formulada pelo concílio de Nicéia. A Trindade não só é desconhecida como constitui uma impossibilidade. No lugar do Espírito Santo, único ulterior, encontramos os “sete espíritos de Deus” extraídos pelos rabinos de Isaías, XI, dois; Jesus Cristo é o filho de Deus, o primeiro e o último, o alfa e o ômega, mas de modo nenhum Deus ou igual a Deus: pelo contrário, ele é “o começo da criação de Deus”, portanto uma emanação de Deus existente de toda a eternidade, mas subordinada, análoga aos sete espíritos acima mencionados. No capítulo XV, 3, os mártires, no céu, “cantam o cântico de Moisés, o servidor de Deus, e o cântico do cordeiro” para a glorificação de Deus. Jesus Cristo aparece, pois, aqui, não somente como subordinado a Deus, mas, de certa maneira, colocado no mesmo plano que Moisés. Jesus Cristo foi crucificado em Jerusalém (XI, 8), mas ressuscitou (1, 5, 18); é o “cordeiro” que foi sacrificado pelos pecados do mundo e com o sangue do qual os fiéis de todos os povos e de todas as línguas são perdoados por Deus. Encontramos aqui a concepção fundamental que permitiu ao cristianismo realizar-se como religião universal. A noção de que os deuses, ofendidos pelas ações dos homens, podiam ser acalmados por sacrifícios, era uma ideia comum a todas as religiões dos Semitas e dos Europeus; a primeira ideia revolucionária fundamental do cristianismo (extraída da escola de Philon) era que, pelo único grande sacrifício voluntário de um mediador, os pecados de todos os tempos de todos os homens eram expiados de uma vez para sempre. . . para os fiéis. De tal modo que desaparecia a necessidade de qualquer sacrifício ulterior e, portanto, a base de numerosas cerimónias religiosas. Ora, a libertação de cerimónias que entravavam ou proibiam o comércio com homens de crenças diferentes era a condição primeira de uma religião universal. E, contudo, o hábito dos sacrifícios estava tão enraizado nos hábitos populares que o catolicismo — que retomou tantos costumes pagãos — julgou útil considerá-lo, introduzindo pelo menos o simbólico sacrifício da missa. Por outro lado, nenhum vestígio, no nosso livro, do dogma do pecado original.
O que sobretudo caracteriza estas cartas, bem como o livro inteiro, é que nunca, nem em parte alguma, vem à ideia do autor designar-se, a ele e aos seus correligionários, de outra maneira senão como. . . Judeus. Aos sectários de Esmirna e de Filadélfia, contra os quais se ergue, ele acusa: “Eles dizem-se Judeus, mas não o são, pertencem sim a uma sinagoga de Satã”; e, dos de Pérgamo, diz:
Estão ligados a Balaam, que ensinava a Balak a criar toda a espécie de dificuldades aos filhos de Israel, para que eles comessem carnes sacrificadas aos ídolos e para que se dedicassem à impudícia.
Não encontramos, pois, aqui, cristãos conscientes, mas pessoas que se consideram Judeus: o seu judaísmo, sem dúvida, é uma nova fase do desenvolvimento do antigo: é precisamente por isso que é o único verdadeiro. É por isso que, quando da aparição dos santos diante do trono de Deus, vêm em primeiro lugar 144.000 Judeus, 12.000 de cada tribo, é só depois a inumerável multidão de pagãos convertidos a esse judaísmo renovado. O nosso autor, no ano 69 da nossa era, estava bem longe de pensar que representava uma fase completamente nova da evolução religiosa, destinada a tornar-se um dos elementos mais revolucionários na história do espírito humano.
Vemos, pois, que o cristianismo de então, que não tinha ainda consciência de si, estava a mil léguas da religião universal, dogmaticamente desenhada pelo concílio de Nicéia; impossível reconhecer esse nesta. Nem a dogmática, nem a ética do cristianismo ulterior, se encontram; em compensação, há o sentimento de que se está em luta com toda a gente e se sairá vencedor dessa luta; um ardor belicoso e uma certeza de vencer que desapareceram completamente nos cristãos dos nossos dias e não se reencontra senão no outro pólo da sociedade, entre os socialistas.
De fato, a luta contra um mundo que inicialmente levou a melhor e a luta simultânea dos inovadores entre si são comuns aos dois; aos cristãos primitivos e aos socialistas. Os dois grandes movimentos não são feitos por chefes e profetas — ainda que os profetas não faltem, quer num, quer no outro —, são movimentos de massas. E todo o movimento de massas é no começo necessariamente confuso; confuso porque todo o pensamento de massas se move, primeiro, em contradições, porque lhe falta clareza e coerência; confuso ainda precisamente por causa do papel que, nos começos, nele desempenham os profetas. Esta confusão manifesta-se na formação de numerosas seitas que se combatem entre si pelo menos com tanto empenho como o que dedicam ao comum inimigo exterior. Isto passava-se assim no cristianismo primitivo; passa-se da mesma maneira nos começos do movimento socialista, por mais aflitivo que isso seja para as honestas pessoas bem intencionadas que pregavam a união, quando a união não era possível.
Será que, por exemplo, a coesão da Internacional era devida a um dogma unitário? De forma nenhuma. Encontravam-se lá comunistas segundo a tradição francesa anterior a 1848, que, por sua vez, representavam cambiantes diferentes; comunistas da escola de Weittling; outros ainda pertencendo à liga regenerada dos comunistas; proudhonianos, que eram o elemento preponderante na França e na Bélgica; blanquistas; o Partido Operário Alemão; enfim, anarquistas bakouninistas, que, por momentos, dominaram na Espanha e na Itália; e estes eram só os grupos principais. A partir da fundação da Internacional, foi preciso um bom quarto de século para que se efectuasse definitivamente e por todo o lado a separação com os anarquistas, e se estabelecesse um acordo pelo menos acerca dos pontos de vista económicos mais genéricos. E isso com os nossos meios de comunicação, os caminhos de ferro, os telégrafos, as monstruosas cidades industriais, a imprensa e as reuniões populares organizadas.
A mesma divisão em inumeráveis seitas entre os primeiros cristãos, divisão que era justamente o meio de organizar a discussão e de obter a unidade ulterior. Constatamo-la já nesse livro, indubitavelmente o mais antigo documento cristão, e o nosso autor condena-a com a mesma atitude implacável que emprega em relação ao mundo dos pecadores não cristãos. Eis primeiro os Nicolaites, em Éfeso, em Pérgamo; aqueles que se dizem Judeus mas que são a sinagoga de Satã, em Esmirna e Filadélfia; os aderentes da doutrina do falso profeta, chamado Balaam em Pérgamo; aqueles que dizem ser profetas mas que não o são, em Éfeso; enfim os partidários da falsa profetisa, chamada Jezabel, em Tiátira. Nada de mais preciso nos é dito acerca destas seitas; só dos sucessores de Balaam e de Jezabel se diz que comem carne sacrificada aos ídolos e que se entregam à impudícia.
Tentou-se imaginar que essas cinco seitas eram de cristãos paulinianos e todas essas cartas como sendo dirigidas contra Paulo, o falso apóstolo, o pretenso Balaam e “Nicolas”. Os argumentos, aliás dificilmente sustentáveis, encontram-se reunidos em Renan. “São Paulo” (Paris, 1869, páginas 303-305-367-370). Todos acabam por explicar as nossas cartas pelos “Atos dos Apóstolos” e pelas “Epístolas” ditas de Paulo, escritos que, pelo menos na sua redação atual, são sessenta anos posteriores ao “Apocalipse” e cujos dados a elas relativos são, pois, mais que duvidosos e que, além disso, se contradizem absolutamente entre si. Mas o que resolve a questão é que de modo algum o nosso autor se lembraria de dar a uma única e mesma seita cinco designações diferentes: duas só para a de Éfeso (falsos apóstolos e nicolaites), duas igualmente para Pérgamo (os balaamitas e os nicolaites), e ainda designando-as expressamente em cada caso como duas seitas diferentes. Contudo, nós não pensamos negar que entre essas seitas se pudessem encontrar elementos que hoje se considerariam como seitas paulinianas.
Nos dois passos em que se entra em pormenores, a acusação limita-se ao consumo de carnes sacrificadas aos ídolos e à impudência, os dois pontos sobre os quais os Judeus — tanto os antigos como os Judeus cristãos — estavam em perpétua disputa com os pagãos convertidos. Carne oriunda dos sacrifícios pagãos era não só servida nos festins, em que recusar os pratos apresentados poderia parecer inconveniente e até perigoso, mas era também vendida nos mercados públicos, em que não era praticamente possível distinguir se era Koscher ou não. Por impudícia, os mesmos Judeus não entendiam apenas o comércio sexual fora do casamento, mas também o casamento entre parentes de graus proibidos pela lei judaica, ou ainda entre Judeus e pagãos, e é este o significado que geralmente é dado à palavra nos “Atos dos Apóstolos” (XV, 20 e 29). Mas o nosso João tem uma opinião própria mesmo no que dizia respeito ao comércio sexual entre os Judeus ortodoxos. Ele diz (XIC, 4) dos 144.000 Judeus celestes: “São aqueles que não se mancharam com mulheres, porque são virgens.” E, de fato, no céu do nosso João não existe uma única mulher. Ele pertencia, pois, a essa tendência que se manifesta igualmente noutros escritos do cristianismo primitivo e considera pecado o comércio sexual em geral. Se, além disso, considerarmos o fato de ele chamar a Roma a grande prostituída, com a qual os reis da Terra se entregaram à impudência e foram embriagados pelo vinho da sua impudência — e os seus mercadores enriqueceram pelo poder do seu luxo —, é-nos impossível considerar a palavra, nas cartas, no sentido estrito que a apologética teológica lhe queria atribuir, com o único fito de extrair uma confirmação para outras passagens do Novo Testamento. Muito pelo contrário. Essas passagens das cartas indicam claramente um fenómeno comum a todas as épocas profundamente perturbadas, isto é, que, ao mesmo tempo que se abalam todas as barreiras, procura-se relaxar os limites tradicionais do comércio sexual. Nos primeiros séculos cristãos, igualmente, ao lado do ascetismo que mortifica a carne, manifesta-se muitas vezes a tendência para estender a liberdade cristã às relações, mais ou menos livres, entre homens e mulheres. A mesma coisa aconteceu no movimento socialista moderno.
Que santa indignação não provocou, depois de 1830, na Alemanha de então — essa “piedosa nursery”, como lhe chama Heine — a reabilitação da carne são-simoniana! As mais intensamente indignadas foram as ordens aristocráticas que dominavam na época (nessa época não havia ainda classes entre nós) e que, tanto em Berlim como nas suas propriedades de campo, não sabiam viver sem uma reabilitação sempre reiterada da sua carne. Que diriam essas boas pessoas se tivessem conhecido Fourier, que oferece para a carne a perspectiva de muito mais alegrias!
Uma vez ultrapassado o utopismo, essas extravagâncias cederam lugar a noções mais racionais e, na realidade, bem mais radicais, e, desde que a Alemanha, da “piedosa nursery” de Heine que era, se tornou o centro do movimento socialista, toda a gente se ri da indignação hipócrita do piedoso mundo aristocrático.
É tudo, quanto ao conteúdo dogmático das cartas. Quanto ao resto, elas excitam os camaradas à propaganda enérgica, à orgulhosa e corajosa confissão da sua fé face aos adversários, à luta sem tréguas contra o inimigo de fora e de dentro; e, sob esse aspecto, elas poderiam também ter sido escritas por um entusiasta da Internacional, por menos profeta que ele fosse.


III


As cartas são apenas a introdução ao verdadeiro tema da comunicação do nosso João às sete Igrejas da Ásia Menor e, através delas, a toda a comunidade judaica reformada do ano 69, donde, mais tarde, saiu a cristandade. E então entramos no santuário mais íntimo do cristianismo primitivo.
Entre que tipo de gente se recrutavam os primeiros cristãos? Principalmente entre os “laboriosos e os fatigados”, pertencendo às mais baixas camadas do povo; tal como convém a um elemento revolucionário. E de quem se compunham essas camadas? Nas cidades, de homens livres decadentes — gente de toda a espécie, semelhantes aos “mean whites” dos Estados esclavagistas do Sul, aos aventureiros e aos vagabundos europeus das cidades marítimas coloniais e chinesas, depois de libertos — e sobretudo de escravos; nos latifundiária da Itália, da Sicília e da África, de escravos; nos distritos rurais das províncias, de pequenos camponeses cada vez mais dependentes pelas suas dívidas. Não existia de modo algum uma via de emancipação comum para tantos elementos diversos. Para todos, o paraíso perdido situava-se no passado; para o homem livre desiludido, era a “polis”, cidade e Estado ao mesmo tempo, de quem os seus antepassados haviam sido outrora cidadãos livres; para os escravos prisioneiros de guerra, a era da liberdade antes da sujeição e do cativeiro; para o pequeno camponês, a sociedade gentílica e a comunidade do solo destruídas. Tudo isso, a mão de ferro niveladora do Romano conquistador havia deitado abaixo. O agrupamento social mais consistente que a Antiguidade tinha sabido criar era a tribo e a confederação de tribos aparentadas, agrupamento baseado, entre os Bárbaros, nas linhas de consanguinidade, entre os Gregos e os Italiotas, fundadores de cidades, sobre a “polis”, que compreendia uma ou várias tribos aparentadas. Filipe e Alexandre deram à península helênica a unidade política, mas dela não resultou a formação de uma nação grega. As nações só se tornaram possíveis depois da queda do Império Romano. Este pôs termo, de uma vez para sempre, aos pequenos agrupamentos; a força militar, a jurisdição romana, o aparelho de percepção de impostos, deslocaram completamente a organização interior tradicional. À perda da independência e da organização original acrescentou-se a pilhagem pelas autoridades civis e militares, que começavam por despojar os vencidos dos seus tesouros para depois lhes emprestarem de novo com taxas de usura, para que eles pudessem pagar novas exações. O peso dos impostos e a necessidade de dinheiro que daí resultava, em regiões em que a economia natural reinava exclusivamente ou de maneira preponderante, colocava cada vez mais os camponeses na dependência dos usurários, introduzindo uma grande desproporção de fortuna. Enriquecia os ricos e empobrecia completamente os pobres. E toda a resistência das pequenas tribos isoladas ou das cidades ao gigantesco poder de Roma era sem esperança. Que remédio para isso, que refúgio para os vencidos, os oprimidos, os empobrecidos, que saída comum para esses grupos humanos diversos, de interesses divergentes ou mesmo opostos? Era contudo preciso encontrar uma, era preciso que um único grande movimento revolucionário os envolvesse a todos.
Essa saída encontrou-se; mas não neste mundo. E, no estado de coisas de então, só a religião podia proporcioná-la. Descobriu-se um novo mundo. A existência da alma depois da morte do corpo tinha-se tornado, pouco a pouco, um artigo de fé reconhecido em todo o mundo romano. Além disso, um modo de sofrimento e de recompensa para a alma do morto, segundo as ações cometidas em vida, era por toda a parte progressivamente admitido. Quando às recompensas, na verdade, isso soava um pouco falso; a Antiguidade era demasiado espontaneamente materialista para não considerar infinitamente mais preciosa a vida real do que a vida no reino das sombras; para os Gregos, a imortalidade era mesmo considerada uma infelicidade. Apareceu o cristianismo, que levou a sério os sofrimentos e as recompensas no outro mundo e criou o céu e o inferno; assim estava encontrada a via por onde conduzir os laboriosos e os desiludidos deste vale de lágrimas para o paraíso eterno. De fato, era preciso a esperança de uma recompensa no Além para conseguir elevar a renúncia ao mundo e o ascetismo da escola estóica de Philon à categoria de princípio ético fundamental de uma nova religião universal, capaz de arrastar as massas oprimidas.
Contudo, a morte não abre de imediato esse paraíso celeste aos fiéis. Veremos que o reino de Deus, de que a nova Jerusalém é a capital, não se conquista nem se abre senão depois de ardentes lutas contra as potências infernais. Ora, os primeiros cristãos consideravam essas lutas como iminentes. Desde o começo, o nosso João designa o seu livro como a revelação “de coisas que devem acontecer em breve”; pouco depois, no versículo três, ele diz: “Feliz aquele que lê e aqueles que escutam as palavras da profecia, porque o tempo está próximo”; à comunidade de Filadélfia, Jesus Cristo faz escrever: “Virei em breve”, e, no último capítulo, o anjo diz que revelou a João “as coisas que devem acontecer em breve” e ordena-lhe: “Não seles as palavras da profecia deste livro, porque o tempo está próximo”, e Jesus Cristo diz por duas vezes, versículos 12 e 30: “Virei em breve”. Veremos em seguida quanto essa vinda era esperada para breve.
As visões apocalípticas que o autor faz passar sob os nossos olhos são todas, e quase sempre palavra por palavra, extraídas de modelos anteriores. Em parte dos profetas clássicos do Antigo Testamento, sobretudo de Ezequiel, em parte dos apocalipses judaicos posteriores, compostos segundo o protótipo do livro de Daniel, e sobretudo do livro de Enoch, já redigido, pelo menos em parte, nessa época. Os críticos já demonstraram, até os mínimos detalhes, de onde o nosso João tirou cada imagem, cada prognóstico sinistro, cada chaga infligida à humanidade incrédula, em suma, o conjunto de materiais do seu livro; de forma que ele manifesta uma pobreza de espírito pouco comum, mas ainda é o próprio a proporcionar-nos a prova de que, as suas pretensas visões e êxtases, ele não as viveu, nem mesmo em imaginação, tal como as descreve.
Eis, em algumas palavras, a marcha das aparições. Primeiro, João vê Deus sentado sobre o seu trono, um livro selado com sete selos na mão; diante dele está o cordeiro (Jesus) degolado, mas de novo vivo, que é considerado digno de abrir os selos. A abertura dos selos é acompanhada de toda a espécie de sinais e de prodígios ameaçadores. Ao quinto selo João apercebe, sob o altar de Deus, as almas dos mártires de Cristo que foram mortos por causa da palavra de Deus:
Eles gritaram com voz forte: Até quando, mestre santo e venerável, continuarás a adiar o julgamento e a vingança do nosso sangue sobre os habitantes da terra?
Nesta altura, é dada a cada um uma veste branca e dizem-lhes que esperem ainda um pouco até que esteja completo o número de mártires que devem morrer. Ainda então não se fala da “religião do amor”, do “amai aqueles que vos odeiam, abençoai os que vos maldizem” etc. . . . Aqui prega-se abertamente a vingança, a sã, a honesta vingança a exercer sobre os perseguidores dos cristãos. Isso prolonga-se ao longo de todo o livro. Quanto mais se aproxima a crise, mais as chagas e os julgamentos chovem densamente do céu, e mais o nosso João sente alegria ao anunciar que a maioria dos homens continua a não se arrepender e a recusar fazer penitência pelos seus pecados; que novos flagelos de Deus devem cair sobre eles; que Cristo deve governá-los com uma vara de ferro e pisar o vinho no lagar da cólera de Deus todo poderoso; mas que, apesar de tudo, os maus continuam a ter o coração endurecido. É o sentimento natural, afastado de toda a hipocrisia, de que se está em luta, e que “na guerra como na guerra”. Na abertura do sétimo selo, aparecem sete anjos com trombetas: sempre que um anjo toca a trombeta, produzem-se novos sinais de terror. Depois do sétimo toque de trombeta, sete novos anjos surgem em cena trazendo as sete cóleras de Deus, que são lançadas sobre a terra, e de novo chovem flagelos e julgamentos, no essencial uma fatigante repetição do que já acontecera inúmeras vezes. Depois, surge a mulher, Babilónia, a grande prostituída, vestida de púrpura e de escarlate, sentada sobre as águas, bêbada do sangue dos santos e do sangue dos mártires de Jesus; é a grande cidade sobre as sete colinas que tem a realeza sobre os reis da terra. Está sentada sobre um animal que tem sete cabeças e dez cornos. As sete cabeças são sete montanhas, são também sete “reis”. Desses reis, cinco passaram; um existe, o sétimo virá, e, depois dele, um dos cinco primeiros voltará, o qual estava ferido de morte mas curou-se. Este reinará sobre a terra quarenta e dois meses ou três anos e meio (a metade de uma semana de anos de sete anos), perseguirá os fiéis até a morte e fará triunfar a impiedade. Em seguida, trava-se uma grande batalha decisiva, os santos e os mártires são vingados pela destruição da grande prostituta Babilónia e todos os seus partidários, quer dizer, a grande maioria dos homens; o diabo é precipitado no abismo e aí é agrilhoado durante mil anos, durante os quais reina Cristo com os mártires ressuscitados. Quando os mil anos tiverem sido cumpridos, o diabo é libertado: segue-se uma última batalha dos espíritos na qual ele é definitivamente vencido. Há uma segunda ressurreição, os restantes mortos ressuscitam e comparecem diante do trono de Deus (não do de Cristo, reparem bem) e os fiéis entram num novo céu, numa nova Terra e numa nova Jerusalém para a vida eterna. Tal como toda esta construção é erguida com materiais quase exclusivamente judeus e pré-cristãos, também inclui quase exclusivamente concepções puramente judaicas. Desde que as coisas começaram a correr mal para o povo de Israel, a partir do momento em que ficou tributário da Assíria e da Babilónia, desde a destruição dos dois reinos de Israel e de Judá, até à sua submissão pelos Seleucidas, isto é, de Isaías até Daniel, sempre existiu, nas horas da adversidade, a profecia de um salvador providencial. No capítulo XII, I, de Daniel encontra-se a profecia da descida de Miguel, o anjo-da-guarda dos Judeus, que os libertará da sua grande angústia: “Muitos mortos ressuscitarão; haverá uma espécie de julgamento final e aqueles que ensinaram a justiça à multidão brilharão como estrelas, para sempre e perpetuadamente”. De cristão, apenas a forma como se insiste na iminência do reino de Jesus Cristo e na felicidade dos fiéis ressuscitados, particularmente dos mártires.
É à crítica alemã, e sobretudo a Ewald, Lucke e Ferdinand Benary que devemos a interpretação desta profecia, no que respeita aos acontecimentos da época. Graças a Renan, ela penetrou noutros meios para lá dos círculos teológicos. A grande prostituída, Babilónia, significa, como vimos, a cidade das sete colinas, Roma. Do animal sobre o qual ela está sentada, diz-se, XVII, nove, 11:
As sete cabeças são sete montanhas sobre as quais a mulher está sentada. São também sete reis: cinco caíram, um existe, o outro ainda não veio, e, quando vier, ficará pouco tempo. E o animal que estava, e que já não está, é um oitavo rei, e pertence ao número dos sete, e caminha para a perdição.
O animal é, pois, a dominação mundial de Roma, representada sucessivamente por sete imperadores, um dos quais foi ferido de morte e deixou de reinar, mas que se curou, e voltará, para cumprir, como oitavo rei, o reino da blasfémia e da rebelião contra Deus.
E foi-lhe ordenado que fizesse a guerra aos santos e os vencesse. E foi-lhe dada autoridade sobre todas as tribos, todos os povos, todas as línguas e todas as nações, e todos os habitantes da Terra o adorarão, aqueles cujo nome não foi escrito desde a fundação do mundo no livro da vida do cordeiro que foi imolado. E ela fez com que todos, pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e escravos, recebessem uma marca sobre a mão direita ou sobre a fronte e com que ninguém pudesse comprar ou vender sem ter a marca, o nome do animal ou o número do seu nome. É esta a sabedoria. Que quem tem inteligência calcule o número do animal. Porque é um número de homem e o seu número é 666 (XIII, sete-18).
Constatemos apenas que o boicote é mencionado aqui como uma medida a empregar pelo poderio romano contra os cristãos — que ele é, pois, manifestamente uma invenção do diabo — e passemos à questão de sabermos quem é esse imperador romano que já reinou, que foi ferido de morte e que volta como o oitavo da série para ser o Anticristo.
Depois de Augusto, o primeiro, temos: dois, Tibério; três, Calígula; quatro, Cláudio; cinco, Nero; seis, Galba. “Cinco caíram, um existe”. Portanto Nero já caiu. Galba existe. Galba reinou de 9 de junho de 68 até 15 de janeiro de 69. Mas, assim que ele subiu ao trono, as legiões do Reno sublevaram-se sob Vitellius, enquanto, noutras províncias, outros generais preparavam levantamentos militares. Mesmo em Roma, os pretorianos sublevaram-se, mataram Galba e proclamaram Otão imperador.
Daqui resulta que o nosso “Apocalipse” foi escrito sob Galba, naturalmente para o fim do seu reinado, ou mais tarde, durante os três meses (até 15 de abril de 69) do reinado de Otão, o sétimo. Mas quem é o oitavo, que foi e não é? O número 666 é a chave.
Entre os Semitas — os Caldeus e os Judeus — desta época, uma arte mágica estava em voga, baseada num duplo significado das letras. Desde cerca de trezentos anos antes da nossa era, as letras hebraicas eram também empregues como números: a=1, b=2, c=3, d=4, e assim sucessivamente. Ora, os adivinhos cabalistas adicionavam os valores numéricos das letras de um nome, e com a ajuda da soma dos algarismos obtida, por exemplo formando palavras ou combinações de palavras de um igual valor numérico que permitiam extrair conclusões sobre o futuro de quem tinha o nome, procuravam fazer profecias. De forma idêntica exprimiam-se palavras secretas nessa língua numérica. Dava-se a esta arte um nome grego, “ghematriah”, geometria; os Caldeus, que a exerciam como profissão, e a quem Tácito chamava “mathemaci”, foram expulsos de Roma sob Cláudio, e de novo sob Vitellius, provavelmente por “delito grave”.
Foi precisamente por meio desta matemática que foi produzido o número 666. Por detrás dele, esconde-se o nome de um dos primeiros cinco imperadores romanos. Ora, Ireneu, no fim do século II, além do número 666, conhecia a variante 616, que datava também de uma época em que o enigma dos algarismos era ainda conhecido. Se a solução responder igualmente aos dois números, a prova está feita.
Ferdinand Bernary, em Berlim, encontrou essa solução. O nome é Nero. O número fundamenta-se em Neron Kesar, a transcrição hebraica — como o atestam o Talmude e as inscrições palmirianas — do grego “Nérôn Kaisar”, Nero imperador, que tinha, como legenda, a moeda de Nero, cunhada nas províncias do Leste do Império. Assim: n (nun)=50; r(resch)=200; v(vau) por 0=6; n(nun)=50; k(koph)=100; s(samech)=60; e r(resch)=200; total=666. Ora, tomando como base a forma latina, “Nero Caesar” o segundo n(nun)=50 suprime-se, e obtemos 666-50=616, a variante de Ireneu.
Efetivamente, todo o Império Romano, no tempo de Galba, vivia em plena confusão. O próprio Galba, chefiando as legiões de Espanha e da Gália, marchara sobre Roma para expulsar Nero; este fugiu e fez-se matar por um liberto. Mas, contra Galba, não só os pretorianos em Roma mas também os comandantes das províncias conspiravam; por todo o lado surgiram pretendentes ao trono, preparando-se para avançar sobre a capital com as suas legiões. O Império parecia ter caído numa guerra intestina; a sua queda parecia iminente. Para cúmulo, espalhou-se o boato, sobretudo no Oriente, de que Nero não estava morto, mas apenas ferido, que estava refugiado entre os Partas, que atravessaria o Eufrates e surgiria com uma força armada para inaugurar um novo reino de terror ainda mais sangrento. Sobretudo a Acaia e a Ásia foram alarmadas com essas notícias. E, precisamente no momento em que o “Apocalipse” deve ter sido composto, apareceu um falso Nero que se estabeleceu com um partido bastante numeroso na ilha de Citnos (a Térmia moderna), no mar Egeu, perto de Patmos e da Ásia Menor, até que foi morto sob Otão. Nada de espantoso que entre os cristãos, contra quem Nero lançara as primeiras grandes perseguições, se tenha propagado o boato de que ele havia de voltar como Anticristo, que o seu regresso bem como uma nova e mais séria tentativa de exterminação sangrenta da jovem seita seriam o presságio e o prelúdio de Cristo, da grande batalha vitoriosa contra as potências do inferno, do reino dos mil anos a estabelecer “em breve” e cuja chegada certa permitia aos mártires irem alegremente para a morte.
A literatura crista e de inspiração crista dos dois primeiros séculos garante, com índices suficientes, que o segredo do número 666 é então conhecido de muitos. Ireneu de certeza que já o não conhecia, mas, por outro lado, sabia, como muitos outros até fins do século II, que o animal do “Apocalipse” era Nero voltando. Depois, este último traço perdeu-se e o nosso “Apocalipse” caiu em poder da interpretação fantástica dos adivinhos ortodoxos; eu próprio ainda conheci pessoas idosas que, segundo os cálculos do velho Johnn Albrecht Bengel, esperavam o fim do mundo e o último julgamento para o ano de 1836; a profecia realizou-se na data anunciada. Só que o julgamento não atingiu o mundo dos pecadores, mas antes os piedosos intérpretes do “Apocalipse”. Porque, nesse ano de 1836, F. Bernary forneceu a chave do número 666 e pôs assim termo a todo esse cálculo divinatório, a essa nova “ghemetriah”.
Do reino celeste reservado aos fiéis, o nosso João apenas nos fornece uma descrição muito superficial. Para a época, a nova Jerusalém é construída segundo um plano bastante grandioso: um quadrado de 12.000 estádios de lado=2227 quilómetros, portanto uma superfície de cerca de 5 milhões de quilómetros quadrados, mais do que metade dos Estados Unidos da América, construída unicamente em ouro e pedras preciosas. Aí, Deus habita no meio dos seus e ilumina-os, substituindo o Sol; não há já nem morte, nem lamentos, nem sofrimentos; um rio de água viva corre através da cidade, nas suas margens cresce a árvore da vida produzindo doze vezes os seus frutos, dando fruto todos os meses, e as folhas das árvores servem “para a cura dos gentis” (à maneira de um chá medicinal, segundo Renan: “O Anticristo”, p. 542). Aí vivem os santos nos séculos dos séculos.
Era assim que se construía o cristianismo na Ásia Menor, o seu primeiro centro, por volta do ano de 68, segundo o que conhecemos. Nenhum indício de uma Trindade; em seu lugar, o velho Jeová, uno e indivisível, do judaísmo decadente, que, de Deus nacional judeu, se elevou à categoria de Deus único; Deus supremo do céu e da terra onde pretende reinar sobre todos os povos, prometendo a graça aos convertidos e exterminando os rebeldes sem misericórdia, nisso fiel ao antigo “parcere subjectis ac debellare superbos”. Também é esse Deus que preside o último julgamento, e não Jesus Cristo, como nas narrativas ulteriores dos Evangelhos e das Epístolas. Conforme à doutrina persa da emanação, familiar ao judaísmo decadente, o Cristo é o cordeiro, emanado de Deus de toda a eternidade; tal como, embora ocupando um lugar muito inferior, os “sete espíritos de Deus” que devem a sua existência a uma passagem poética mal compreendida (Isaías, XI, dois). Nenhum deles é Deus ou igual a Deus, mas submetido a ele. O cordeiro oferece-se de sua plena vontade como sacrifício expiatório pelos pecados do mundo, e por esse alto feito vê-se expressamente promovido em grau no céu; em todo o livro esse sacrifício voluntário é contado como um ato extraordinário e não como uma ação oriunda necessariamente do mais profundo do seu ser.
É evidente que toda a corte celeste dos antigos, dos querubins, dos anjos e dos santos não falta. Para se constituir em religião, o monoteísmo sempre teve de fazer concessões ao politeísmo, datando do “Zendavesta”. Entre os Judeus, a recaída para os deuses pagãos e sensuais persiste em estado crónico até que, depois do exílio, a corte celeste, à maneira persa, acomoda um pouco melhor a religião à imaginação popular. O próprio cristianismo, mesmo depois de ter substituído o Deus dos Judeus eternamente imutável pelo misterioso Deus trinitário, diferenciado em si mesmo, não conseguiu suplantar o culto dos antigos deuses entre as massas senão pelo culto dos santos. Assim, segundo Fallmerayer, o culto de Júpiter persistiu no Peloponeso, na Maina, na Arcádia, até cerca do século IX. E só a época moderna e o seu protestantismo afastam os santos e encaram, enfim, seriamente, o monoteísmo diferenciado.
O nosso “Apocalipse” também não conhece o dogma do pecado original nem a justificação pela fé. A fé dessas primeiras comunidades belicosas difere completamente da Igreja triunfante posterior; ao lado do sacrifício expiatório do cordeiro, a próxima vinda de Cristo e a iminência do reino milenar constituem o seu conteúdo essencial e ela manifesta-se pela ativa propaganda, pela luta sem tréguas contra o inimigo de fora e de dentro, pela orgulhosa confissão das suas convicções revolucionárias diante dos juízes pagãos, pelo martírio corajosamente suportado na certeza da vitória.
Como vimos, o autor não suspeita ainda que é algo mais que Judeu. Consequentemente, nenhuma alusão, em todo o livro, ao batismo; existem também numerosos indícios de que o batismo é uma instituição do segundo período cristão. Os 144.000 Judeus crentes são “selados”, não batizados. Dos santos no céu é dito: “São aqueles que lavaram e embranqueceram as longas vestes no sangue do cordeiro”; nada acerca da água do batismo. Os dois profetas que precedem a aparição do Anticristo (cap. XI) também não batizam e, no capítulo XIX, 10, o testemunho de Jesus não é o batismo mas o espírito de profecia. Teria sido natural em todas estas ocasiões falar do batismo, por pouco que estivesse já instituído. Estamos pois autorizados a concluir com uma quase certeza que o nosso autor não o conhecia e que ele só foi introduzido quando os cristãos se separaram completamente dos Judeus.
O nosso autor é também ignorante acerca do segundo sacramento ulterior — a eucaristia. Se no texto de Lutero o Cristo promete a todos os Tiasirianos que perseveraram na fé a entrada na sua casa e a comunhão com ele, isso constitui uma falsa abordagem do texto. Em grego lê-se “deipneso”, eu cearei (com ele), e a palavra está corretamente traduzida na bíblia inglesa: “I shall sup with him”. A ceia como festim comemorativo não é aqui referida.
O nosso livro, com a data (68 ou 69) atestada de maneira tão particular, é indubitavelmente o mais antigo da literatura cristã no seu conjunto. Nenhum outro é escrito numa língua tão bárbara, em que formigam os hebraísmos, as construções impossíveis, os erros gramaticais. Só os teólogos de profissão, ou outros historiógrafos interessados, continuam a negar que os Evangelhos e os “Atos dos Apóstolos” são arranjos tardios de escritos hoje perdidos e cujo ténue núcleo histórico já não pode ser descoberto sob a luxuriante lenda; mesmo as três ou quatro “Epístolas” apostólicas pretensamente autênticas de Bruno Bauer não representam mais do que escritos de uma época posterior, ou, na melhor das hipóteses, composições mais antigas de autores desconhecidos, retocadas e embelezadas por numerosas adições e interpolações. É muito mais importante para nós possuir com a nossa obra, cujo período de redação se estabelece com a margem de erro de um mês, um livro que nos apresenta o cristianismo sob a sua forma mais rudimentar, sob a forma em que está para a religião de Estado do século IV, constituída na sua dogmática e na sua mitologia pouco mais ou menos como a mitologia ainda vacilante dos Germanos de Tácito está para a mitologia do Edda, plenamente elaborada sob a influência de elementos cristãos e antigos.
O germe da religião universal encontra-se lá, mas contém ainda em estado indiferenciado as mil possibilidades de desenvolvimento que se realizaram nas inumeráveis seitas ulteriores. Se o fragmento mais antigo do processo de elaboração do cristianismo tem para nós um valor muito particular, é porque nos proporciona, na sua integridade, o que o judaísmo — fortemente influenciado por Alexandria — forneceu ao cristianismo. Tudo o que é posterior é acrescento ocidental, greco-romano. Foi necessária a mediação da religião judaica monoteísta para fazer revestir ao monoteísmo erudito da filosofia grega vulgar a forma religiosa sob a qual ele podia chegar às massas. Uma vez essa mediação encontrada, ele só podia tornar-se uma religião universal no mundo greco-romano, continuando a desenvolver-se para finalmente se fundir no fundo de ideias que esse mundo tinha conquistado.